Alberto acordou às 9:00h da manhã, olhou o relógio de cabeceira pela décima vez e disse:
_”PUTA QUE PARIU!” (Alberto tinha uma reunião importantíssima no trabalho às 8:30h.)
Ele levantou ainda sonolento, calçou sua pantufa de ursinhos e gritou:
_”AI DROGA!” (Uma pequena abelha acabara de picar seu dedão.)
Alberto se encaminha então ao banheiro, tira seu pijama amarrotado, entra debaixo do chuveiro e liga a pequena chave para a água cair. Ele se molha, passa sabão em seu corpo troncudo, abre novamente a chave e exclama:
_ “O QUE EU FIZ PRA MERECER ISSO?!” (A água não caiu. Corte por falta de pagamento.)
Alberto sai do banheiro enraivecido, se enxugando com uma toalha já puída. Arruma-se apressadamente e sai de casa. O elevador demorava de chegar, parecia estar quebrado. Desceu então a escada pelos seis andares que o separavam da saída do prédio. Lá fora fazia frio. Havia chovido por toda a noite e a temperatura caíra bastante. Ele se encaminha então ao trabalho, planejando alguma desculpa que pudesse explicar sua ausência. Vira uma esquina logo à frente e esbraveja:
_ “INFERNO! FILHO DA MÃE OLHE POR ONDE ANDA!” (Um carro acabava de lhe jogar a água de uma poça na rua, molhando toda a sua calça.)
Alberto tenta inutilmente tirar um pouco do excesso de água da calça e logo desiste. Continua seu trajeto e logo chega a seu destino. No trabalho, cumprimenta Anita (a secretária) e entra naquela que costumava ser sua sala. Lá seu chefe o aguardava. Aroldo (o chefe) sussurra algo e Alberto lamenta:
_ “Meu Deus, o que vou fazer agora?!” (Havia perdido o emprego. A reunião fora um fracasso sem sua presença e um contrato não havia sido fechado.)
Ele sai então desolado, despedindo-se dos que seriam, a partir daquele dia, seus ex-colegas de trabalho.
Não sabia pra onde ir, nem o que fazer. Não queria voltar pra casa e ver contas e mais contas sobre a mesa. Caminha então por uma rua desconhecida, sem rumo. Logo à frente, avista uma lotérica e se lembra da aposta que havia feito há um tempo atrás. Entra, confere os números sorteados e compara-os com os de seu bilhete. Confere e compara-os incansavelmente. Tomado por uma súbita euforia, Alberto berra aos quatro ventos:
_ “PUTA QUE PARIU! EU GANHEI!”
Sai correndo direto para o banco mais próximo. Precisava sentir logo o cheiro e a textura de sua fortuna. No caminho, mil planos surgiram em sua mente. Viagens, apartamentos, festas, mulheres. Precisava ter tudo isso em suas mãos o mais depressa possível. No banco procura pelo gerente e reclama seu prêmio. O gerente (Arnaldo) espanta-se com tanta euforia, pede o bilhete para que seja conferido. Analisa-o e balança a cabeça negativamente. O prêmio fora sorteado a mais de noventa dias. Alberto demorou muito para reclamá-lo. O governo já havia abocanhado aquela que seria sua grande fortuna.
Com a cabeça fervilhando e ainda atordoado, Alberto sai do banco, passa na banca de revistas mais próxima e compra o jornal do dia. Dá uma olhada nos classificados e circula certo ponto do grande papel cinza. Olha pro céu, vê que o sol tomara novamente seu posto e segue pela rua pensando: “Seja o que Deus quiser”.